Corra que a Polícia Vem Aí! (The Naked Gun, 2025) de Akiva Schaffer
Resgatar clássicos absolutos da comédia de paródia sempre foi um terreno arenoso em Hollywood, especialmente quando o projeto envolve substituir a presença insubstituível de Leslie Nielsen. Por isso, a chegada do novo Corra que a Polícia Vem Aí! (The Naked Gun, 2025) às telas desperta uma grata surpresa.
O longa-metragem equilibra-se em uma linha fina: à primeira vista, para o público mais desatento, a produção pode até parecer um mero remake oportunista. No entanto, o roteiro encontra uma saída inteligente ao estabelecer que o personagem interpretado de forma brilhante por Liam Neeson é, na verdade, Frank Drebin Jr., o filho do atrapalhado detetive Frank Drebin (o icônico protagonista do clássico original lançado em 1988).
Essa filiação narrativa é o grande trunfo da produção. Graças a essa sacada de roteiro, o longa consegue repetir com precisão milimétrica o estilo nonsense e o ritmo frenético do seu antecessor espiritual, mas sem que a experiência pareça uma cópia barata ou um pastiche sem alma. Trata-se, genuinamente, de um novo capítulo moldado sob medida para as novas gerações de espectadores, mantendo o DNA da comédia de absurdos viva, oxigenada e atualizada para os tempos modernos. E o resultado final cumpre perfeitamente o seu papel principal: é um filme que diverte bastante.
Assim como Nielsen fazia magistralmente no passado, Liam Neeson utiliza sua persona de astro veterano de filmes de ação sisudo — construída ao longo de anos em franquias de resgate e vingança — para potencializar o tom cômico da fita. O contraste gritante entre a sua seriedade imperturbável, quase sepulcral, e o caos absoluto que se desenrola ao seu redor funciona como o verdadeiro motor do filme.
Dentro dessa engrenagem humorística, as piadas visuais em camadas seguem firmes como o carro-chefe da narrativa. O roteiro cria um mundo particular onde o absurdo é a moeda comum e perfeitamente aceito por todos os personagens. O espectador é bombardeado sem tréguas por piadas correndo em segundo plano, trocadilhos literais infames e gags físicas que exigem atenção constante a cada pequeno canto do frame, recompensando quem assiste mais de uma vez.

O humor ganha ainda mais força graças ao entrosamento do e química divertida do casal principal, entregando uma dinâmica romântica que serve como uma âncora charmosa em meio ao festival de bizarrices cotidianas da trama. Neeson divide os holofotes com Pamela Anderson, que interpreta o seu par romântico na história. A escolha da atriz se prova um verdadeiro acerto de escalação; ela abraça o tom satírico do projeto com leveza e entrega uma performance hilária, remetendo diretamente ao arquétipo de par romântico que as musas dos anos noventa defendiam nos filmes originais do trio Zucker, Abrahams e Zucker.
Os dois jogam um com o outro com um tempo cômico afiadíssimo, fazendo com que até as situações mais ridículas pareçam naturais dentro daquela realidade completamente distorcida de Gotham. Sem nenhuma pretensão de revolucionar a história do cinema ou ditar novas regras, o filme se assume puramente como um passatempo leve, nostálgico, respeitoso e muito revigorante. Vale muito a pena dar uma chance a essa nova e desastrada investigação policial; trata-se de um tipo de produção descompromissada feita sob medida para se assistir do início ao fim com um sorriso constante no rosto.


























