Dia #7 – Semana Internacional da Crítica – Festival de Veneza 2026
The H@LLOW MAN (Tunísia, 2026), de Kamel Laaridhi
Na célebre reflexão do filósofo italiano Antonio Gramsci, aprende-se que “o velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: eis o tempo dos monstros”. A premissa do sci-fi tunisiano THE H@LLOW MAN (O Homem Oco) de Kamel Laaridhi, encontra nessa máxima uma ressonância perturbadora ao projetar uma crise de hegemonia em sua escala mais radical e intimista. Na distopia integrante da Mostra Competitiva da Semana Internacional da Crítica no Festival de Veneza 2026, a força bruta ganha contornos ainda mais perversos: o sistema não apenas reprime os corpos, mas esvazia a própria subjetividade humana ao drenar memórias e sentimentos.
A trama se passa na Tunísia de 2059, exatamente 10 anos após a chamada “Grande Catástrofe” — evento global no qual 80% da população mundial foi dizimada. Para gerir os sobreviventes, o governo impõe uma rigorosa regulação populacional amparada por biochips, controle social e vigilância severa. O implante tecnológico atua diretamente na psique humana: dilui e apaga memórias, inibe e suprime emoções. Em um mundo onde até a hipnoterapia é proscrita como crime, o protagonista Taha (vivido em silêncio por Mohammed Hessine Grayaa) submete-se secretamente à hipnose em busca de um escape. O processo, contudo, o arrasta para uma jornada perturbadora através de suas próprias origens, da violência política e do espectro sufocado de sua mãe.
Como conceito e proposta narrativa, THE H@LLOW MAN oferece uma premissa valiosa. O “velho mundo que morre” manifesta-se nessa arquitetura autoritária que, incapaz de responder às necessidades humanas reais, tenta congelar o tempo apagando o passado. Sem memória, o indivíduo perde o senso de história e pertencimento; sem emoção, perde a capacidade de indignação necessária para a transformação social. É nesse vácuo que os “monstros” de Gramsci emergem — encarnados tanto no extremismo ideológico quanto na figura do próprio “homem oco”, o sujeito anestesiado, desumanizado e desprovido de afeto.

O filme estende o seu alerta para além do controle mental, alfinetando a cumplicidade do cotidiano digital e ecológico contemporâneo. A narrativa ecoa a denúncia de que vivemos sonâmbulos rumo ao apocalipse ambiental a cada clique, scroll ou busca criptografada: nosso consumo digital em nuvem atua como uma arma silenciosa de destruição em massa. O roteiro pontua de forma alarmante que “não somos apenas usuários, somos executores do próprio planeta”, mostrando como a tecnologia desproprovida de ética se volta contra a natureza humana e ambiental.
Entretanto, se a ideia central é promissora, a execução do longa tropeça em suas escolhas dramáticas e principalmente no ritmo. O filme perde tração ao lidar com o fanatismo religioso e a dependência institucional (aqui relacionada ao islamismo). A religião, que surge inicialmente como sintoma ou tentativa de salvação contra a opressão, passa a ser apresentada e aceita pela narrativa quase como o único refúgio possível para muitos. Isso enfraquece a crítica central do filme: ao apontar para uma postura de submissão cega e fatalismo — em que ações vistas como terroristas são justificadas por obrigações dogmáticas —, o roteiro acaba caindo na própria armadilha ideológica que pretendia denunciar, quebrando o ritmo e diluindo o conflito do protagonista.
Além disso, temas urgentes como a regulação da liberdade, o controle algorítmico e a inibição deliberada de emoções acabam, em muitos momentos, sendo tratados de maneira distante, servindo mais como pano de fundo conceitual do que como engrenagens dramáticas ativas.
Ainda assim, THE H@LLOW MAN preserva seu valor como um ensaio sobre a alienação. Revela que a barbárie não se estabelece apenas pela destruição material, mas pelo esvaziamento total da condição humana. Proteger a memória e a sensibilidade torna-se, portanto, a primeira e mais urgente trincheira de resistência contra os monstros que emergem nas sombras das transições históricas. Kamel Laaridhi entrega uma obra imperfeita e regular na cadência, mas inquieta, filosófica e política.























