Animais Perigosos (Dangerous Animals, 2025) de Louis Melville
Habemus filme de tubarão. Mas, desta vez, a ameaça que vem das profundezas ganha um contorno ainda mais sinistro ao dividir o protagonismo com a perversidade da mente humana. A produção australiana Animais Perigosos (Dangerous Animals, 2025) se consolida como um horror visceral que tempera com maestria a angústia e a aflição do espectador ao transformar os personagens em verdadeiras iscas — tanto para o predador dos oceanos quanto para um sádico serial killer. A premissa, que à primeira vista poderia soar como um mero pastiche de subgêneros, revela-se uma junção única e instigante, capaz de fazer o público trincar os dentes do primeiro ao último minuto. Ao fundir o terror de sobrevivência marítima com a crueza do subgênero slasher com elementos de serial killer, o filme cria uma atmosfera sufocante onde o homem e a fera disputam o topo da cadeia alimentar do sadismo.
O longa-metragem não tem medo da própria violência e abraça o horror sem concessões para explorar até onde pode chegar a barbárie humana. Há, inclusive, um espaço incômodo e muito bem trabalhado para o fetiche voyeurístico dentro da narrativa. A direção utiliza dispositivos de filmagem e vigilância para colocar o espectador na posição desconfortável de cúmplice, com direito a replays literais das brutalidades cometidas. Esse recurso amplifica o sadismo da produção, transformando o ato de assistir em uma experiência quase claustrofóbica, onde a agonia das vítimas é comercializada e dissecada friamente pelo assassino. É um filme brutalmente excelente para quem busca um suspense que não higieniza o impacto de suas mortes.

Para os cinéfilos mais atentos, a obra é um prato cheio de reverências ao cinema de gênero. É praticamente impossível não notar uma brilhante referência ao icônico psicopata Buffalo Bill, imortalizado no clássico O Silêncio dos Inocentes (1991). Em uma das sequências mais perturbadoras e plasticamente magnéticas do filme, o assassino surge vestindo um roupão, celebrando a execução de mais um crime com álcool, uma dança coreografada e trilha sonora marcante. A alusão não é apenas estética; ela serve para traçar a vaidade e o descolamento da realidade que guiam a mente daquele monstro de duas pernas, ecoando a mesma bizarrice hipnotizante que Ted Levine trouxe ao filme de Jonathan Demme.
Além disso, embora o longa possa flertar com uma leve inspiração no clássico cult Devorado Vivo (Eaten Alive, 1976), dirigido por Tobe Hooper, a narrativa estabelece sua própria identidade ao delimitar fronteiras muito claras. Há uma diferença fundamental entre a condução psicológica deste novo roteiro, focado em um assassino serial metódico, e o clássico trash de Hooper, que apresentava um dono de hotel completamente louco e caótico tentando se livrar das pessoas. A óbvia (mas crucial) mudança do animal — trocando o crocodilo do pântano de 1976 por um implacável tubarão — também altera drasticamente a dinâmica de isolamento e o ritmo das perseguições.

Ao unir duas grandes paixões dos aficionados por cinema de terror — a caçada implacável do serial killer tradicional e o pânico primitivo dos filmes de criatura —, numa junção envolvente, Animais Perigosos entrega exatamente o que promete. Com uma sofisticação técnica inesperada, a produção consegue se destacar no cenário contemporâneo. É uma obra que perturba, diverte pelo excesso e deixa um rastro de sangue inesquecível na tela grande.


























