
Ricky (2009) de François Ozon
No longa Ricky (2009), o diretor francês François Ozon subverte o realismo social ao introduzir o fantástico no cotidiano operário. A trama acompanha Katie, operária em uma fábrica de produtos químicos, e Paco, seu companheiro de trabalho. Dessa união nasce Ricky, um bebê aparentemente comum. A direção artística e a fotografia naturalista de Jeanne Lapoirie ancoram a narrativa em uma realidade crua, periférica e desprovida de qualquer glamourização, fazendo com que o subsequente surgimento de asas no bebê funcione como uma poderosa metáfora visual e psicológica sobre as transformações, o fardo social e o milagre da maternidade.
Ozon utiliza planos detalhados (os chamados close-ups) e uma edição cadenciada para explorar o estranhamento do corpo da criança. Inicialmente, as protuberâncias nas costas de Ricky assemelham-se a hematomas, levantando suspeitas de abuso doméstico que intensificam a crueza dramática. Contudo, à medida que as asas se desenvolvem, misturando a textura da pele de ave à penugem angelical, o cineasta transiciona o longa do horror corporal para o realismo mágico. A câmera na mão acompanha de perto os primeiros voos desajeitados no modesto apartamento, transformando o espaço claustrofóbico do drama familiar em uma fábula existencialista sobre a aceitação e a perda.
A análise fílmica revela que os membros alados não operam sob um viés místico tradicional. Eles simbolizam a própria imprevisibilidade da criação e a consequente perda de controle inerente à jornada dos pais. Quando o segredo do bebê é exposto ao mundo, atraindo o frenesi sensacionalista dos tabloides e a exploração pública, a obra tece uma crítica mordaz à espetacularização do extraordinário. O voo final de Ricky em campo aberto funciona como o ápice do desapego emocional, forçando a dolorosa desconstrução das expectativas parentais e celebrando a autonomia natural inerente à própria vida.
Mais do que propor um mero questionamento teológico, a refinada estética do filme constrói uma atmosfera de beleza angelical única. O diretor alcança esse efeito marcante ao contrapor uma iluminação solar difusa e melancólica aos cenários acinzentados da periferia industrial francesa, gerando um contraste técnico potente que engrandece muito a narrativa visual. Ozon desafia continuamente o espectador a suspender temporariamente a descrença e a abandonar o cinismo cotidiano, instigando-o a enxergar a poesia intimista escondida nas imperfeições da carne e no profundo mistério da vida comum. Assim, o belo longa-metragem se consolida como um lírico estudo sobre o amor incondicional e a imensa coragem necessária para simplesmente saber deixar voar.
O DVD disponibilizado para avaliação não possui extras.


























