Kraven, o Caçador (Kraven The Hunter, 2024) de J. C. Chandor
O universo cinematográfico é fascinante pelas suas manobras comerciais, mas poucas decisões de Hollywood foram tão bizarras quanto o plano da Sony Pictures de criar um universo partilhado focado nos vilões e personagens secundários do Homem-Aranha, mas sem a presença do próprio Homem-Aranha. Devido ao complexo acordo com a Marvel Studios, o herói aracnídeo ficou restrito aos seus próprios filmes solo da Sony ou às grandiosas produções dos Vingadores, dentro do Universo Cinematográfico Marvel (MCU). Como resposta, a Sony desenhou e adaptou para as telas uma cronologia tortuosa de anti-heróis que, infelizmente, se consolidou como sinônimo de fracasso criativo.
Essa trajetória de equívocos começou com Venom (2018) e sua sequência Venom: Tempo de Carnificina (2021), ambos focados no jornalista Eddie Brock e seu simbionte alienígena em uma mistura de comédia romântica involuntária e ação genérica, ambos foram sucessos de bilheteria, pelo menos agradando boa parte do público, contudo fracassando artisticamente.
Na sequência, o estúdio não agradou muito a audiência, afundando às expectativas com Morbius (2022), longa estrelado por Jared Leto no papel do bioquímico que se transforma em um vampiro vivo, mas que rapidamente virou piada. O ano de 2024 foi o golpe de misericórdia nessa, digamos, franquia moribunda: primeiro veio o catastrófico Madame Teia (2024), trazendo Dakota Johnson como Cassandra Webb, uma paramédica que desenvolve habilidades de clarividência em um roteiro desconexo; E meses depois, tentaram fechar a trilogia do simbionte com Venom: A Última Rodada (2024), mantendo o nível rasteiro e tom de uma comédia de ação.
Fechando com chave de lata, o declínio se materializa em Kraven, o Caçador (2024), projeto que explora a origem do icônico caçador e que serve para provar que, no fim das contas, todos esses filmes são muito ruins e não funcionam nem como produtos, quanto adaptação de personagens de quadrinhos.
Mas vamos centralizar a análise em Kraven, o Caçador. O resultado é lamentável. Kraven sempre foi um dos vilões mais emblemáticos, complexos e implacáveis do Homem-Aranha nos quadrinhos — um homem movido pelo desejo primitivo de provar sua superioridade como o predador definitivo, imortalizado na icônica saga de HQs, A Última Caçada de Kraven. No cinema, interpretado por Aaron Taylor-Johnson, o personagem é esvaziado de tudo o que o tornava fascinante. Em vez de um caçador obsessivo e cruel, o roteiro tenta transformá-lo em um anti-herói incompreendido, um protetor dos animais com problemas paternos clichês.
Aaron Taylor-Johnson (Globo de Ouro de Ator Coadjuvante por Animais Noturnos, 2016) é um ator fisicamente dedicado, mas seu carisma é completamente soterrado por um texto pedestre e por uma direção que não sabe o que fazer com a violência do personagem. O filme tenta flertar com uma classificação indicativa mais alta, entregando decapitações e sangue digital, mas tudo soa artificial e sem peso dramático. A narrativa de origem falha em criar qualquer senso de perigo ou urgência, tornando a jornada do protagonista um bocejo contínuo.

O grande pecado da Sony foi acreditar que personagens definidos por sua obsessão em derrotar o Homem-Aranha poderiam sustentar arcos dramáticos heroicos sem o seu principal antagonista.
Visualmente, o filme é um retrocesso. As sequências de ação dependem excessivamente de um CGI de baixa qualidade, onde os animais da savana parecem saídos de um videogame antigo e os movimentos de Kraven desafiam as leis da física de forma vergonhosa. O confronto final é uma bagunça de cortes rápidos e fumaça digital que serve apenas para mascarar a pobreza técnica da produção.
Curioso notar que, até aqui, a filmografia do diretor J. C. Chandor era muito boa (Margin Call – O Dia Antes do Fim, 2011; Até o Fim, 2013; O Ano Mais Violento, 2014; Operação Fronteira, 2019). Era, pois “Kraven, o Caçador” aparentemente enterra de vez qualquer relevância que esse universo derivado da Sony poderia ter. É uma obra que não agrada aos leitores de quadrinhos, pois desfigura a essência do vilão, e falha em entreter o público geral por ser um filme de ação genérico, arrastado e sem alma. A persistência da Sony em insistir nessa fórmula vazia só comprova que, sem o próprio Homem-Aranha para amarrar essas histórias, o que resta é um emaranhado de teia gasta sem propósito, com produções ruins e totalmente esquecíveis.

























