Valente (Brave, 2012), de Mark Andrews e Brenda Chapman e co-direção de Steve Purcell
Quando a Pixar Animation Studios anunciou a produção de seu primeiro longa-metragem focado em uma protagonista feminina, a expectativa da crítica e do público atingiu níveis estratosféricos. O estúdio, conhecido historicamente como o berço das obras mais originais, ousadas e disruptivas do cinema de animação das últimas décadas, parecia pronto para revolucionar o arquétipo das realeza animada. O resultado dessa incursão foi Valente (Brave, 2012), um projeto que, embora atinja notas altíssimas em sua execução técnica e estética, provoca um debate inevitável sobre a sua verdadeira identidade criativa.
A narrativa nos apresenta a jovem Merida, uma princesa escocesa dotada de uma habilidade formidável no manuseio do arco e flecha. Ao confrontar as amarras patriarcais e desafiar a própria tradição milenar do seu reino de escolher um pretendente, ela toma a decisão drástica de moldar sozinha o seu destino. No entanto, ao recorrer ao feitiço de uma bruxa da floresta, ela desencadeia uma maldição involuntária que pode mudar para sempre a vida de todos ao seu redor. Nesse ponto, o roteiro perde um pouco de sua força inventiva ao flertar abertamente com a estrutura dramática de Irmão Urso (2003), apoiando-se na transformação animal como ferramenta de reconciliação familiar e trazendo algumas boas piadas físicas que aliviam a tensão.
Do ponto de vista puramente técnico, a produção é um deslumbre e uma prova do pioneirismo tecnológico da Pixar. A direção de arte concebe uma Escócia mística e exuberantemente colorida, onde o uso da profundidade de campo e da iluminação volumétrica cria paisagens de tirar o fôlego.

O formato 3D é aplicado com inteligência geométrica, destacando-se de forma orgânica nas sequências de ação em alta velocidade, nos voos das flechas e, acima de tudo, na física impressionante dos cabelos desgrenhados e intensamente avermelhados da heroína. Para dar vida aos cachos de Merida, os engenheiros de software do estúdio criaram um simulador de física inédito (chamado Taz), capaz de calcular o movimento independente de milhares de fios de cabelo espiralados, garantindo que a cabeleira reagisse realisticamente à gravidade, ao vento e à água.
Contudo, por trás do primor técnico das texturas de tecidos e musgos, reside o principal dilema analítico da obra. A primeira princesa da grife Pixar acabou se revelando muito mais Disney do que qualquer outra coisa. Os cacoetes tradicionais da empresa-mãe — como a busca por liberdade individual, os conflitos geracionais entre mãe e filha e os inevitáveis alívios cômicos com animais — engoliram o tom melancólico e a ousadia narrativa que outrora ditaram o ritmo de obras como WALL-E ou Up: Altas Aventuras. Valente firma-se como um belíssimo conto de fadas técnico e uma grande aventura, mas que preferiu o conforto da fórmula clássica ao risco da inovação conceitual.

























