Anaconda (Anaconda, 2025) de Tom Gormican
O mundo do cinema foi agraciado (e horrorizado) por Anaconda (1997), um longa que tentava se levar a sério como um suspense de sobrevivência na floresta, mas que acabou entrando para a história como um clássico absoluto do cinema trash. Quase três décadas depois, o diretor Tom Gormican (também co-autor do roteiro) assumiu a audaciosa missão de reviver a franquia com um novo Anaconda (2025). Uma aposta da Sony Pictures para o fechamento das estreias de cinemas em 2025, o filme não apenas abraça a cafonice inerente do conceito original, mas a eleva ao quadrado, transformando o horror em uma comédia de aventura escrachada, metalinguística e extremamente divertida. Eu ri demais, e é provável que qualquer um que entre na sala de cinema desarmado faça o mesmo.
O grande trunfo do roteiro assinado pela dupla Gormican e Kevin Etten (os mesmos de Axel Foley: Um Tira da Pesada, 2024 e O Peso do Talento, 2022) – baseado em personagens criados por Hans Bauer, em 1997 – é a inteligência com que justifica sua própria existência. Em vez de tentar uma sequência direta convencional ou um recomeço sóbrio, o longa utiliza a narrativa do “filme dentro do filme”. A trama acompanha um grupo de amigos em plena crise de meia-idade que decide viajar até a floresta Amazônica (toda reproduzida e filmada na Austrália) com um objetivo peculiar: gravar um remake independente do clássico de 1997.
Essa sacada genial permite que o filme funcione simultaneamente como um remake espiritual e uma paródia, utilizando diversos elementos e piadas internas do primeiro longa. A ironia atinge o ápice quando a produção amadora dos personagens colide com o perigo real: uma cobra gigante de verdade, gerada por computação gráfica propositalmente exagerada, passa a caçá-los. A metalinguagem se torna o escudo perfeito; qualquer defeito especial ou decisão absurda do roteiro é imediatamente perdoada porque os próprios personagens estão comentando o quão ridícula é aquela situação.

Se a premissa funciona no papel, ela ganha vida graças ao entrosamento magnético do elenco principal. Paul Rudd e Jack Black são puro carisma. Rudd entrega aquela sua persona clássica de homem comum, levemente neurótico e incompreendido, que serve como a escada perfeita para as loucuras de Jack Black. Sim, como sempre, Black opera em sua frequência máxima de energia caótica, interpretando o diretor frustrado que se recusa a parar de rodar as cenas mesmo quando o monstro está engolindo um membro da equipe. A química entre os dois sustenta o ritmo do filme, transformando o que poderia ser um desastre de roteiro em uma sucessão de piadas rápidas e gags físicas hilárias.
Para o público brasileiro, há um motivo extra de celebração: o filme marca a estreia de Selton Mello no grande cinema comercial americano. Longe de ser apenas uma participação especial esquecível, Mello entrega uma performance memorável, equilibrando-se muito bem no tom de comédia ácida imposto pela dupla de Hollywood e mostrando que o talento nacional funciona em qualquer território, mesmo enfrentando uma criatura gigante.
E cá para nós, nem é necessário se fazer uma análise profunda da sua estrutura de roteiro e a proposta fazem um excelente uso de metalinguagem para justificar o retorno da franquia de forma inteligente. Novamente cito Jack Black e Paul Rudd, que mostram-se impecáveis e carregam o filme com facilidade, Thandiwe Newton como suporte cômico e emocional, enquanto Selton Mello brilha em sua estreia internacional sem ficar à sombra das estrelas norte-americanas. Quanto aos efeitos especiais, eles são propositalmente canastrões, honrando com louvor o espírito trash do cinema do final dos anos 90. Tudo isso resulta em um fator diversão altíssimo, consolidando a produção como uma das melhores e mais espirituosas comédias de horror dos últimos anos.
O novo Anaconda (2025) entrega exatamente o que promete e mais um pouco. É uma celebração do cinema de monstro sem vergonha de ser ridículo. Tom Gormican entendeu que o segredo para resgatar essa marca não era fazer o público gritar de medo, mas sim chorar de rir. Se você busca lógica científica ou um suspense tenso, passe longe. Mas se você quer ver dois dos maiores comediantes da nossa geração correndo de uma cobra digital imensa enquanto discutem crises existenciais na Amazônia, este é o seu filme do ano.


























