
Shame (Idem, 2011) de Steve McQueen
Quando desembarcou nos cinemas mundiais, o drama erótico-psicológico Shame (2011) estabeleceu-se como um verdadeiro estopim cultural. Sob a direção de mão pesada de Steve McQueen, a obra adotou um tom assumidamente provocativo e polêmico que, à época de sua estreia, bateu forte no estômago do público e da crítica especializada. Ao lançar um olhar cru e sem concessões sobre a dependência sexual de Brandon (Michael Fassbender), o filme desafiou tabus e utilizou o choque visual como uma ferramenta de denúncia contra as patologias da sociedade moderna, gerando debates acalorados sobre a fronteira entre a arte e a transgressão.
No entanto, o cinema é uma arte viva, sujeita às marés do tempo. Hoje, em uma revisão distanciada de seu impacto inicial, aquela urgência polêmica perdeu consideravelmente o seu peso chocante. O que antes parecia uma provocação radical contra a moralidade, agora, desprovido do barulho das controvérsias de 2011, revela-se meramente sob outra ótica. Shame transformou-se em um bom drama deprimente, cujo verdadeiro cerne não reside no erotismo explícito, mas sim no vazio de espírito, no isolamento urbano e na profunda solidão que consome as pessoas na era da hiperconectividade.
O olhar cinético e cirúrgico de McQueen maximiza a descrença na humanidade ao enclausurar seu protagonista em uma rotina de relações fortuitas, sem nomes, rostos ou endereços. Brandon usa o sexo não como busca por prazer, mas como um anestésico contra a própria incapacidade de se conectar afetivamente com o outro, preferindo uma decisão melancólica de viver somente para si. No epicentro dessa espiral autodestrutiva, Michael Fassbender entrega uma atuação monumental. Sua esnobada pelo Oscar daquele ano, após ter sido nomeado ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, permanece justamente como uma das maiores e mais ultrajantes injustiças cometidas pela Academia de Hollywood na história recente.
Entre sequências tecnicamente impecáveis e de um desconforto atormentador, há um momento de delicadeza ímpar que sintetiza a alma da produção. Trata-se da cena em que Sissy, a vulnerável irmã do protagonista interpretada brilhantemente por Carey Mulligan, entoa de forma arrastada e melancólica a clássica canção New York, New York. O resultado é de uma beleza contemplativa devastadora, funcionando como o hino definitivo do desamparo de duas almas perdidas na metrópole. Shame continua imperdível; uma obra que trocou o escândalo pela sensibilidade de expor a nossa fragilidade invisível.


























