Entrevista com o Demônio (Late Night with the Devil, 2023) de Cameron Cairnes e Colin Cairnes
O gênero do terror frequentemente se vê encurralado entre a repetição exaustiva de clichês e a busca frenética pelo susto fácil. No entanto, de tempos em tempos, surge uma obra capaz de implodir as expectativas do público e remodelar as fronteiras do medo psicológico. É exatamente esse o impacto causado por Entrevista com o Demônio (Late Night with the Devil), que desponta como uma estreia imperdível nos cinemas brasileiros para quem é genuinamente apaixonado pelo horror de alta estirpe. O longa-metragem não se contenta em apenas assustar; ele constrói uma experiência imersiva e perturbadora que sequestra a atenção da audiência do primeiro ao último frame.
A premissa da narrativa é brilhante em sua simplicidade e assustadora em sua execução: acompanhamos os bastidores e a exibição de uma transmissão televisiva de um talk show ao vivo na noite de Halloween em 1977. O apresentador Jack Delroy, em uma busca desesperada por audiência após tragédias pessoais, decide levar ao ar uma edição focada no ocultismo, trazendo ao palco uma jovem supostamente possuída. O que deveria ser apenas um espetáculo midiático dá terrivelmente errado, liberando o mal absoluto não apenas no estúdio, mas de forma literal em todos os lares do país que sintonizavam o programa. Tratado pela direção como um fato real e incontestável, esse evento é o ponto de partida ideal para costurar uma narrativa que flerta abertamente com o cinema-verdade, o formato documental e a crueza gráfica do true crime, mas com o diferencial avassalador de estar acontecendo “ao vivo”, diante dos olhos atônitos do espectador. É um convite macabro ao estilo “acredite se quiser”.

Do ponto de vista estritamente técnico, o filme estabelece-se como um triunfo absoluto de estilo. O visual é impecável ao reproduzir minuciosamente a textura das fitas magnéticas, a iluminação lavada dos estúdios setentistas e o figurino da época. No entanto, o grande trunfo dos diretores Colin e Cameron Cairnes reside na escolha do ritmo. O estilo de filmagem opera, em grande parte, como se estivéssemos assistindo a um drama contemplativo e de época, focado nos diálogos e nas dinâmicas de bastidores. Mas essa aparente calmaria é uma armadilha: o roteiro insere sacadas cirúrgicas que instigam a curiosidade e minam a segurança do público, sendo perfeitamente capaz de fazer o espectador trincar os dentes de pura agonia conforme o relógio avança em direção à meia-noite.
No epicentro desse verdadeiro colapso televisivo, a interpretação do protagonista David Dastmalchian é simplesmente sensacional. Conhecido por papéis coadjuvantes marcantes em Hollywood, Dastmalchian encontra – até aqui – o papel de sua vida. Ele confere a Jack Delroy uma dualidade magnética: o charme plástico de um apresentador de TV que esconde uma dor profunda, uma ambição desmedida e um pavor crescente à medida que percebe que perdeu o controle sobre as forças que invocou. Sua performance ancora o absurdo da situação em um realismo psicológico devastador.
Entrevista com o Demônio envolve o espectador ao transformar o que seria um tradicional filme de possessão em uma crônica ácida sobre a ética da comunicação e a busca implacável pelo sucesso a qualquer custo. A produção independente entrega uma das experiências mais originais e genuinamente assustadoras dos atual cinema americano. Uma obra visualmente fascinante, e que merece ser testemunhada na tela grande, nos cinemas, deixando nossos olhos bem abertos e o coração acelerado.


























