O Último Dançarino de Mao (Mao´s Last Dancer, 2011) de Bruce Beresford
A intersecção entre a rigidez geopolítica e a libertação artística sempre rendeu narrativas potentes no cinema. Dentro dessa vertente, o longa-metragem debruça-se sobre uma jornada de superação individual e dissidência política. Trata-se de O Último Dançarino de Mao (Mao´s Last Dancer, 2011) de Bruce Beresford, um drama baseado na história real do bailarino chinês Li Cunxin (Chi Chao), que de camponês passou a bailarino do ballet oficial do governo de Mao, na China dos anos 80. O grande trunfo desse tipo de produção reside justamente no seu nível de “filme verdade”, onde o compromisso com os fatos reais confere uma camada extra de respeito e peso dramático às provações enfrentadas pelo protagonista, transformando a biografia em um testemunho histórico sobre a busca pela liberdade individual em meio ao coletivismo estatal.
A condução da narrativa aposta em caminhos seguros e amplamente testados pela cartilha de Hollywood. De estrutura simples e conduzida de forma convencional, o longa é mostrado em flashbacks ao contar detalhes sobre seus treinamentos, privações, noites de choro no escuro e por fim seu intercâmbio nos EUA, que após apresentações o fez decidir não voltar à China. Essa oscilação temporal entre o rigor quase militar da formação asiática e o vislumbre de autonomia no Ocidente ajuda a desenhar a complexidade psicológica de Li Cunxin. Quem assina a obra é o veterano diretor Bruce Beresford, cineasta de filmografia respeitável e contida — conhecido por conduzir com elegância dramas humanos de forte apelo emocional e acadêmico, como o oscarizado Conduzindo Miss Daisy (1989) e o musical dramático, A Força do Carinho (1983).

Em sua direção aqui, Beresford demonstra seu habitual controle formal e acadêmico. Ele é um realizador que faz uso de câmera lenta em momentos cruciais, para ressaltar a beleza dos movimentos e dramaticidade da história. Essa estilização visual, embora flerte com o melodrama, funciona, e seu ponto alto é um reencontro familiar em pleno teatro. Essa sequência específica consegue extrair uma catarse genuína do espectador através da plasticidade da dança unida ao sentimento de reconciliação. No entanto, essa mesma polidez estética impede que a fita atinja voos mais ousados; o filme opera dentro de uma zona de conforto emocional que conforta, mas não eterniza na mente, empalidecendo diante de obras mais viscerais sobre o mesmo tema.
O estofo do projeto é garantido pela solidez de suas atuações. No elenco, além do protagonista, os destaques são Bruce Greenwood (13 Dias que Abalaram o Mundo, 2000), como o consagrado coreógrafo Ben Stevenson, e Kyle MacLachlan (Veludo Azul, 1986), como o advogado Charles Foster. Greenwood entrega uma sobriedade elegante ao mentor, enquanto MacLachlan confere a urgência necessária ao bloco jurídico da trama. O saldo é de um registro biográfico digno e competente.
– O DVD disponibilizado para avaliação não possui extras (filme também disponível em Bluray).


























