Voltar a Morrer (Dead Again, 1991) de Kenneth Branagh
Um suspense de primeira prateleira, em resumo. Voltar a Morrer (Dead Again, 1991), dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, em seu primeiro trabalho na direção após o aclamado Henrique V (1989), pelo qual foi duplamente indicado ao Oscar (Melhor Ator e Direção), permanece como um dos suspenses mais elegantes, audaciosos e subestimados dos anos 1990. Distanciando-se do rigor do teatro shakespeareano sem abandonar a grandiosidade e o requinte dramático que marcaram sua formação, Branagh constrói um thriller neo-noir eletrizante, repleto de paixão, obsessão e reviravoltas espirituais. O roteiro fenomenal assinado por Scott Frank (Malícia, 1993; Irresistível Paixão, 1998) é o grande motor dessa empreitada, entregando uma história incrível e perfeitamente amarrada que desafia o espectador a montar um quebra-cabeça temporal onde o passado recusa-se a permanecer enterrado.

A trama ganha vida quando Mike Church (Kenneth Branagh), um detetive particular especializado em localizar pessoas desaparecidas em Los Angeles, encontra uma mulher misteriosa sem memória e sem voz (Emma Thompson), atormentada por terrores noturnos e terríveis pesadelos recorrentes. Sem pistas sobre a identidade da jovem — a quem batiza provisoriamente de Grace —, ele aceita a ajuda de Franklyn Madson (Derek Jacobi), um excêntrico antiquário e hipnotizador.
Durante as sessões de hipnose para tentar resgatar as memórias da moça, vem à tona uma estarrecedora suspeita de dupla reencarnação: Grace parece ter conexões espirituais diretas com Margaret Strauss (interpretada pela própria Emma Thompson), uma pianista famosa brutalmente assassinada no auge do sucesso nos anos 1940, cujo marido, o maestro e compositor Roman Strauss (também vivido por Kenneth Branagh), foi acusado, condenado e executado por seu homicídio.

O maior trunfo estético e narrativo de Branagh reside na habilidade de conduzir a obra por meio de dois arcos temporais distintos que se entrelaçam de maneira magistral. As sequências do passado, ambientadas nos anos 1940, são filmadas em um preto e branco belíssimo e estilizado, com alto contraste e sombras profundas que evocam a era de ouro do cinema noir.
Em contrapartida, as cenas do presente surgem em cores vibrantes e saturadas, criando uma atmosfera visual marcante e moderna. Longe de ser apenas um mero truque visual ou um mero recurso estilístico, esses dois mundos se complementam com precisão cirúrgica, convergindo para um plot twist extremamente classudo, inteligente e surpreendente no terceiro ato, daqueles que reconfiguram toda a percepção do espectador sobre as pistas espalhadas ao longo da projeção.

Para além de sua estrutura narrativa exemplar, a produção brilha intensamente pela força de seu elenco grande e magnificamente orquestrado. A química magnética entre Kenneth Branagh e Emma Thompson — na época casados na vida real — confere uma densidade emocional tocante aos dois casais em diferentes eras. Soma-se a eles uma galeria de coadjuvantes de peso que abrilhantam a fita: Sir Derek Jacobi imprime o tom exato de enigma ao hipnotizador; Andy García entrega uma atuação elegante e contida como o jornalista Gray Baker; e Robin Williams (creditado sob o pseudônimo de Emmanuel Xuereb) rouba a cena em uma participação memorável e atípica como o Dr. Cozy Carlisle, um ex-psiquiatra desgraçado e amargurado que trabalha em um açougue; e Hanna Schygulla, como a misteriosa Inga.
Um conjunto de harmoniosa produção, a qual a experiência sensorial atinge seu ápice através da magnífica trilha sonora composta por Patrick Doyle, cujas melodias orquestradas, envolventes e dramaticamente intensas elevam a tensão a cada revelação. Voltar a Morrer é um exercício de estilo refinado e empolgante meio Hitchcock, meio Brian De Palma, confirmando o talento ímpar (e inteiro) de Branagh para orquestrar o suspense em sua forma mais pura.

























